Marx, a política e o “politicismo”'
| Karl Marx e Friedrich Engels na redação da Nova Gazeta Renana. (Evgenij Natanovic Sapiro, 1961, óleo sobre tela, Museu Marx-Engels, Moscou) |
Por Francisco Xarão*
Em junho passado celebramos 167 anos da publicação do primeiro exemplar do Jornal Nova Gazeta Renana – órgão da democracia,
fundado por Marx e Engels, para o combate no front ideológico, na
revolução alemã de 1848. Neste diário, no período de 1/6/1848 a
19/5/1849, Marx travou um duro combate contra o politicismo. Observar,
em retrospectiva, esta crítica, pode sugerir alguma lição a ser
aprendida pela esquerda no Brasil do século XXI.
O
contexto da fundação do jornal e da crítica ao politicismo é, grosso
modo, o seguinte: reconhecendo as debilidades organizativas da Liga dos
Comunistas e o incipiente desenvolvimento tanto do proletariado quanto
da burguesia alemã, Marx e Engels, sob crítica de outros membros da
Liga, se posicionam taticamente na ala esquerda do partido democrata, ao
invés de insistir na organização do partido comunista. Por isso, o
subtítulo do jornal: órgão da democracia.
Engels, em 1884, ao avaliar a intervenção de ambos no processo
revolucionário, justificará essa opção argumentando que os comunistas em
1848 só poderiam ter como bandeira revolucionária, na Alemanha, a
democracia. A constituição de uma república democrática era o requisito
fundamental para que os operários alemães conquistassem direitos
elementares que lhes possibilitassem uma organização independente. Além
disso, enfatiza Engels, a participação na ala mais progressista do
movimento oferecia as melhores condições para que seu órgão da democracia pudesse
falar para uma audiência bem mais ampla, ao invés de propagandear o
comunismo em qualquer jornalzinho local ou fundar uma pequena seita.
Após
os levantes de março que derrubaram o rei, a burguesia, que não
promoveu os levantes, mas fora obrigada a participar, assume a testa do
movimento e propõe uma nova constituição. A Assembleia Nacional
Constituinte Alemã reúne-se, em maio, na Igreja de São Paulo, em
Frankfurt. Sua convocação previa um pacto entre a coroa e os eleitos
indiretamente – a maioria burgueses e burocratas prussianos. Por isso,
Marx a designa, ironicamente, de Assembleia Pactista.
Nessa alcunha ele condena tanto o palavrório leviano quanto a ação
irrefletida, inclusive do seu partido, o da democracia. Este, ao longo
do processo revolucionário, oscilou entre a acomodação das palavras
elogiosas, na vitória, e o abandono dos princípios, na derrota. Tudo
porque seus aliados burgueses argumentavam estar ao lado do princípio
democrático, mas lamentavam que a Alemanha não estava madura para uma
república democrática e que a melhor alternativa seria a monarquia
constitucional. Desse modo, ao invés de pôr em prática o que seria
possível fazer para realizar o princípio democrático, a maioria dos
deputados gastava o período das reuniões do parlamento com explanações
longas e cansativas sobre o ideal de uma Alemanha unida, a liberdade de
imprensa e uma nova constituição liberal. Enquanto isso, os opositores
da revolução, que conheciam bem as relações “Reais” do poder, ganhavam
tempo para mobilizar suas forças. Esse trocadilho de Marx entre a real
situação e a situação do Rei, tornou-se profético, pois Frederico
Guilherme IV, que fora destronado em março de 1848, retorna em março de
1849, eleito pela Assembleia Nacional Constituinte, como Imperador da
Alemanha.
O
campo revolucionário, por não ter ainda erguido sob seus pés o poder da
classe que ascendeu ao Estado, é necessariamente arbitrário, o que não
significa sem limites ou sem princípios. A cadeia dos acontecimentos
seguirá sempre o caminho que fez aquela classe chegar até onde chegou,
ou seja, se foi em nome da democracia que o povo rebentou as antigas
relações instituídas na constituição e iniciou a construção de uma nova,
então ela precisa se materializar pela imposição da maioria.
A
classe vitoriosa em março – proletários, camponeses, pequena burguesia e
a maior parte da burguesia industrial – que queriam uma república
democrática, deveriam governar. Seu primeiro ato teria de ser decretar o
fim do governo anterior. Como não o fez, como não seguiu o curso
natural do desenlace da luta política da qual fora vencedora, o partido
democrático soçobrou. Seu pavor da reação lhe impediu de opor-se às
usurpações reacionárias do governo caduco. Obteve com isso seu
aniquilamento como força política. Por medo do exército absolutista
deixou de conquistar um poder no povo contra o qual se despedaçariam
todas as baionetas e fuzis. O decisivo, portanto, na resolução do
impasse da crise, na opinião de Marx, não é o número de armas que um ou
outro lado conseguirá mobilizar, mas a opinião do povo sobre contra quem
elas devem ser utilizadas. Consequentemente, ao não viabilizar os meios
para tornar seu princípio força material – por exemplo, abolindo todas
as obrigações feudais, constituindo um novo exército popular e
instituindo o sufrágio universal –, a Assembleia Nacional Constituinte
permitiu que as razões que levaram à revolução se tornassem derrotas.
Permitiu que a luta por uma Alemanha unida sob uma república fosse
retirada do terreno social e levada para a arena política, onde o poder
econômico exerce seu controle com mais eficiência. Era desta situação,
insiste Marx, que o partido democrático precisava tomar consciência.
No entanto, o partido da democracia, salvo a ala mais radical representada na Nova Gazeta Renana,
continuou a luta parlamentar acreditando na força das suas ideias,
clamando ao povo que se unisse aos seus princípios redentores. Procedia
assim porque atuava no limite do Estado, do poder político. Tinha uma fé
inabalável na política. Acreditava que as questões sociais eram o
resultado da falta de acordo entre os que governam. Supunha que as
diversas lutas no interior do parlamento eram apenas o confronto de
ideias. Do lado oposto, a Nova Gazeta Renana,
ao negar-se a ser “uma folha parlamentar”, negava-se a pensar nos
limites da política, porque sabia que todas as lutas políticas são
somente as formas aparenciais dos conflitos sociais. Ressoa aqui a
convicção mais profunda de Marx sobre a natureza da política – a arena
na qual simulam-se as lutas sociais, o teatro onde se encenam acordos
entre interesses inconciliáveis para mascarar a dominação de classe.
Contudo,
ainda que Marx reconheça que a política não é outra coisa senão o poder
instituído da classe dominante para legislar em causa própria, ele não
recomenda que os trabalhadores abdiquem dela, porque todas as armas que
eles precisam para lutar contra a opressão de classe são forjadas na
própria sociedade burguesa. Infelizmente, escreve Marx em vários artigos
da Nova Gazeta Renana,
as condições dessa luta, para tristeza de certos “revolucionários”, não
são adaptadas para suas fantasias idealistas como liberdade, igualdade,
fraternidade, republicanismo, tolerância e outras desse tipo. Não são
os princípios, por si mesmos, que determinam a forma de luta a ser
trilhada, mas as condições e os interesses materiais da classe. É por
isso que os trabalhadores precisam atuar politicamente, mas com o olhar
social. Qualquer reivindicação social, por mais particular que seja, é
sempre mais universal do que a proposição política mais geral. É assim
porque a questão social toca, sempre, no cerne do sistema: a propriedade
privada dos meios de produção. No entanto, na Alemanha de 1848, a luta
pela reforma do sistema político, embora mais restrita que a luta pela
reforma agrária, por exemplo, assumiu um papel central, na medida em que
sua conquista significava a derrota do antigo regime e a preparação do
terreno para o combate entre burgueses e proletários.
Em
síntese, a superação do politicismo – essa crença exagerada e sem
fundamento do que pode a política – se viabiliza pela atuação na
política para além da política. Nos termos de Marx, isso significa que
em cada momento específico e sob as condições reais das relações sociais
da luta de classes, os trabalhadores precisam dar os passos possíveis
que conduzam ao aumento do seu poder material e à diminuição do poder da
burguesia. E se isso não for possível, lutar, ao menos, para não perder
o que já conquistou.
* Francisco Xarão é professor de Filosofia da UNIFAL-MG
Referências:
MARX, K.; ENGELS, F. [1848-49] Nova Gazeta Renana. São Paulo: Educ, 2010.
ENGELS, Friedrich. [1884] Marx e a Nova Gazeta Renana. In: MARX, K.; ENGELS, F. Obras escolhidas. 2. ed. Rio de Janeiro: Vitória, 1963. v. III